31 de janeiro de 2011

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Somente Cristo! Esta é uma afirmação conclusiva a qual chegaram os Reformadores do século XVI. Eles resolveram, ou melhor, foram guiados pelo Espírito Santo para enxergarem a grandeza da obra redentora de JESUS. Atentaram ao sublime mistério da paixão como um definitivo acontecimento para a salvação, o perdão e a justificação para todos os crentes, em todas as gerações e em todas as épocas. Em um tempo onde Cristo dividia espaço com outros “possíveis mediadores”, a Reforma veio trazer luz sobre uma das verdades mais absolutas e mais enfáticas que poderíamos aceitar; uma verdade que estava sendo negada e negligenciada pelo catolicismo romano: Cristo é suficiente para a nossa salvação!
A doutrina do “Solo Christus” não só reconhece os méritos de Cristo, como também exclui qualquer outra pessoa de dividir essa glória com ele. Somente Cristo, isto é, ninguém além de Cristo. Ninguém além de Cristo era capaz de cumprir os propósitos de Deus quanto à salvação dos pecadores. Ninguém além de Cristo poderia ser a oferta para a remoção das ofensas. Ninguém além de Cristo poderia suportar todo o peso da responsabilidade de ser o justificador, o autor e consumador da nossa fé. Ninguém além de Cristo poderia ter feito melhor a intercessão entre nós e Deus.
Talvez este seja um ponto onde a maioria dos protestantes sejam unânimes até hoje. Negar que somente Cristo é suficientemente poderoso para nos conferir salvação é negar a sua força e chamar de ineficaz o plano de Deus. Era isso o que acontecia na idade média. Em 431 d.C. instituiu-se o culto a Maria, em 787 d.C. passou a venerar as imagens e em 933 d.C. começou a realizar canonizações. Na ótica corrompida da igreja católica, Maria era uma espécie de co-redentora, e que os santos eram também intercessores entre nós e Deus. Desta forma o cristão não via a Cristo como o único caminho, mas como um dos possíveis. É por este motivo que onde a idolatria reina absoluto, Cristo não tem lugar na mente das pessoas. Vejam como exemplo aqui o nordeste. Aqui é a região mais idólatra do país. Há lugares onde o padroeiro é mais levado em conta do que Deus. Vi ontem numa reportagem da TV local um agricultor louvando a São José pela chuva que recebeu nesse mês. Por que isso? Porque ele foi ensinado que São José tem poder para enviar chuvas à terra. E onde fica Deus nisso? Deus não tem mais autoridade de enviar sua provisão? Ou será que ele perdeu essa capacidade porque está muito velho e repassou para José a responsabilidade de regar a terra? É claro que não! Quem ordena e envia as chuvas é Deus. Mas a mente frágil e suscetível das pessoas mais simples é manipulada pela engenhosidade do catolicismo para acreditarem nessas bobagens. Uma pessoa assim nem se lembra de JESUS, não faz idéia do significado da vinda dele ao mundo e de sua morte na cruz. Em vez disso, Maria e os santos, tem total proeminência.
Aprendemos nas Escrituras a reconhecer como digno de louvor somente a Deus, e JESUS como Deus corporificado. Vejam que quando os magos do oriente vieram até onde estava o menino JESUS, eles o adoraram:
“E entrando na casa, viram o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro incenso e mirra” (Mateus 2.11).
O texto não diz “e os adoraram”, mas “o adoraram”. Maria estava próxima, mas não recebeu adoração alguma, porque ela não é digna disso, era uma simples mulher e tão pecadora quanto qualquer outro ser humano. Maria também precisou da salvação que seu filho veio trazer, ela mesmo disse que precisava do salvador:
“Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador” (Lucas 1.46,47).
Os escolastas argumentam que por Maria ter sido concebida sem pecado, isto a coloca numa posição de honra acima de todos nós, ou seja, ela e JESUS teriam a mesma essência pura e isenta do pecado original de Adão. Mas onde na Bíblia vemos essa afirmação? Quando alguém encontrar me avisem. Simplesmente não existe; pelo contrário, Paulo nos diz:
“Porque TODOS pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Roamanos 3.23).
O único que sobre o qual é dito que não teve pecado é o Senhor JESUS Cristo:
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2ª Coríntios 5.21).
“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer- se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hebreus 4.15).
 “Porque para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas. Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1ª Pedro 2.21,22).
Logo a doutrina da “Imaculada Conceição de Maria” não é bíblica, e se não é bíblica é porque procede dos homens e não de Deus. Também não nos é ensinado em parte alguma que os apóstolos ou aqueles que tiveram uma vida piedosa no passado, mereçam receber adoração e culto, ou que eles possam ouvir nossas orações e interceder a Deus por nós. Paulo e Barnabé recusaram-se ser adorados em Listra quando o povo, em sua ignorância espiritual, quis lhes oferecer sacrifícios os invocando como deuses (Atos 14.15). Por que hoje, se eles pudessem se comunicar conosco, seria diferente? O anjo que veio trazer a revelação ao apóstolo João recusou a atitude dele de se prostrar:
“Então me lancei a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: Olha, não faças tal: sou conservo teu e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus; adora a Deus; pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia” (Revelação 19.10).
Hoje, no entanto, há pessoas que se curvam diante de esculturas de anjos e de homens e mulheres para adorá-los.
A Reforma veio para nos lembra de uma máxima das Escrituras:
“E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos” (Atos 4.12).
Não pode existir outro nome, não pode existir mais ninguém. Só JESUS derramou o seu sangue para nos resgatar e reconciliar com Deus, não foi Maria, não foram os apóstolos, não foram os outros santos, foi somente Cristo.
Na segunda Confissão Helvética Lemos:
“Só Deus deve ser invocado pela exclusiva mediação de Cristo. Em todas as crises e provações de nossa vida invocamos somente a ele e isso pela mediação de Jesus Cristo, nosso único mediador e intercessor. Eis o que nos é claramente ordenado: “Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Sal 50,15). Temos uma promessa generosíssima do Senhor, que disse: “Se pedirdes alguma cousa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome” (João 16,23), e: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mat 11,28). Está escrito: “Como, porém, invocarão aquele em que não creram?” (Rom 10.14). Nós cremos em um só Deus, e só a ele invocamos, e o fazemos mediante Cristo[i]”.
E um logo adiante também diz:
“Por essa razão não adoramos, nem cultuamos nem invocamos os santos dos céus, nem outros deuses, nem os reconhecemos como nossos intercessores ou mediadores perante o Pai que está no céu. Deus e Cristo, o Mediador, nos são suficientes. Nem concedemos a outros a honra que é devida somente a Deus e ao seu Filho, porque ele claramente disse: “A minha glória, pois, não a darei a outrem” (Is 42.8)[ii].
Somente em Cristo achamos salvação e somente ele é o nosso mediador e intercessor. Render essa glória a qualquer outro ser humano, constitui-se em idolatria e pecado, pois ofende a santidade e a divindade de Deus.
“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1ª Timóteo 1.5).


[i] Segunda Confissão Helvética, Cap. X §24  – O Livro das Confissões da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América PC(USA) -  Missão Presbiteriana no Brasil Central – 1966 - Revisado, atualizado e editado para o contexto da PC(USA) pelo Portuguese Language Ministry of The Outreach Foundation PC(USA), Louisville, Kentucky, por José Pezini e Alcenir Oliveira 2006.
[ii] Segunda Confissão Helvética, Cap. X §25.

29 de janeiro de 2011

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Talvez seja a grande questão que a Reforma veio para sanar. A justificação pela fé. Quando dizemos “Sola Fide” estamos dizendo que nada é mais necessário para que se chegue à salvação do que a fé na obra redentora de Cristo. Assim, se excluem mutuamente as boas obras humanas ou mesmo as obras prescritas pela Lei de Moisés. Não somos salvos pela fé, somos salvos por Cristo, através da Fé nele.
A Doutrina da justificação não afirma que nós fomos transformados em justos (num sentido definitivo da palavra), mas que somos transformados de pecadores inveterados em pecadores justificados, isto é, a quem alguma justiça foi atribuída, e esta justiça não poderia ser outra se não a de Cristo. Tristemente, como nos outros casos, este também não era o pensamento da Igreja Católica, ou dos “escolastas”, como dizia Calvino. O catolicismo romano ensinava que o homem tinha uma participação fundamental na sua justificação, sempre apelando para as suas obras. Me revolta ver como a verdade da Bíblia era negligenciada pelo clero medieval; era como se eles fizessem questão de crer exatamente ao contrário do que as Escrituras ensinam. No concílio de Trento, chegou-se a seguinte conclusão:
“Se alguém diz que o pecador é justificado pela fé somente, significando que nada mais é requerido para cooperar a fim de receber a graça da justificação, e que não é de forma alguma necessário que ele seja preparado e disposto pela a ação de sua própria vontade, seja anátema.[1]
Ficou claro que para eles a fé não era suficiente, ela precisava está aliada a justiça (as boas obras que tornam a pessoa considerada justa) já existentes no pecador, e elas iriam “cooperar” para que este pudesse receber a justificação. Paulo não concorda com esse ponto de vista quando escreve aos romanos:
“Ora, ao que trabalha não se lhe conta a recompensa como dádiva, mas sim como dívida; porém ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é contada como justiça; assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça independentemente de obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputará o pecado” (Romanos 4.4-8).
Se obras fossem necessárias, Deus estaria como que obrigado a alguma coisa. Paulo compara essa situação a um empregador e seu empregado, o que o empregado faz deve ser reconhecido como dívida para o empregador, o salário não é um presente, é algo merecido e um direito, ou ele paga ou vai se haver na justiça. Nós, porém, cremos naquele que justifica o ímpio. E nossa fé nos é levado em conta.
O mesmo apóstolo, quando escrevia a Igreja de Éfeso, disse também:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não de obras para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8).
Veja que a fé é apenas o “meio” pelo qual a salvação se concretiza, e mesmo ela não foi produzida por nós mesmos e nem prevista em nós. Quando ele diz, e isto não vem de vós, é dom de Deus, está se referindo a fé, a fé é um dom de Deus. E logo em seguida Paulo exclui qualquer participação de obras, para que ninguém possa se vangloriar de ter feito por onde merecer o dom salvífico de Deus. Isto inclui as obras da Lei e qualquer tentativa humana de comprar o favor divino.
Em seu livro “Institutas da Religião Cristã”, Calvino abordou esse tema com maestria também. Ele disse assim:
“A Escritura, porém, quando fala da justiça proveniente da fé, nos conduz a algo muito diferente, isto é, que voltados da contemplação de nossas obras olhemos somente para a misericórdia de Deus e a perfeição de Cristo. Com efeito, a Escritura ensina esta ordem da justificação: primeiramente, que Deus se digna abraçar o homem pecador por sua mera e graciosa bondade, não considerando nele nada porque seja movido à misericórdia, exceto sua miséria, a quem, na verdade, vê inteiramente desnudo e vazio de boas obras, buscando ele em si mesmo a causa pela qual lhe deva ser benévolo; então, ele se deixa tocar pelo senso de sua bondade para com o próprio pecador, para que, não confiando nas próprias obras, lance à sua misericórdia toda a soma de sua salvação. Este é o sentimento de fé através do qual o pecador vem à posse de sua salvação, enquanto do ensino do evangelho se reconhece reconciliado com Deus, ou, seja, interpondo-se a justiça de Cristo e alcançada a remissão dos pecados, seja ele justificado; e ainda que seja regenerado pelo Espírito de Deus, não obstante não põe sua confiança nas obras que faz, senão que está plenamente seguro de que sua perpétua justiça consiste unicamente na justiça de Cristo”[2].
Não podemos conciliar a nossa justificação em Cristo a qualquer outra coisa se não a fé, pois corremos o risco de dizer que é exigido de nós méritos, e se méritos forem antes exigidos de nós, onde ficam os de Cristo? A justiça de Cristo é atribuída a nós, e não nós que estabelecemos a nossa própria como premissa para podermos receber a justificação. Não são as nossas obras que nos habilitam a receber o perdão de Deus, é a nossa fé no sacrifício de seu filho,e esta fé é enxertada em nós pelo próprio Deus, para que assim possamos por fim ter paz com ele.
“Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).

Pr Samuel




[1] Canons and Decrees of Thd Council of Trent, H. J. Schoreder – (London: Heder Book Co., 1941), 43.
[2] Institutas da Religião Cristã, Jean Calvin ,Vol. III, Cap. XI, XVI – Fides Reformata.

28 de janeiro de 2011

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A Graça de Deus é a razão pela qual estamos aqui até hoje. Não é possível admitir que uma Igreja séria não pregue não viva e não creia na Graça Divina. Os reformadores entenderam que o homem nasce totalmente desprovido de qualquer disposição a favor de Deus. Isto fica claro nas palavras do apóstolo Paulo, quando diz:
“Não há justo, nem um se quer; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um se quer” (Romanos 3.10-12).
Neste estado o ser humano é um necessitado urgente da Graça de Deus. Ao afirmarmos que Somente a Graça, estamos dizendo que ela é a única e eficaz causa da salvação”. Absolutamente nada do que possamos fazer em termos de obras ou ação, servirá para nos tornar merecedores de algo da parte de Deus.
Incrivelmente não era o pensamento da Igreja, e não é até os dias de hoje. A Igreja Católica crê que os homens possuem livre arbítrio, e que são sim capazes de fazer escolhas boas em relação ao seu futuro eterno. Segundo os teólogos católicos, o ser humano não se encontra totalmente corrompido, ou seja, o pecado de Adão não causou tanto estrago com pensamos. Assim sendo, ele pode por meio da sua própria razão, conhecer a Deus. Eles concordam que o pecado existe, mas que mesmo assim o homem ainda é capaz de ter o controle sobre sua vontade, ainda que se sinta extremamente atraído para o mal.
A salvação seria administrada pela igreja, com o uso dos sacramentos, dessa forma a graça é obtida. Isto é um equívoco, pois acaba condicionando-a as obras praticadas. Além do que, é necessário primeiro o homem ser considerado digno de recebê-la. Isto não é graça! Paulo diz claramente:
“Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não de obras, para que ninguém de glorie” (Efésios 2.8).
Se a salvação, em qualquer instância dependesse de nós, anularia totalmente esse versículo. A graça já não seria graça. Nós não podemos merecer através de penitências ou qualquer outra coisa, o dom gratuito de Deus.
"Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tito 3:3-5).
A Bíblia assegura categoricamente que somos salvos pela misericórdia divina, o homem não é capaz nem se quer de cooperar com ela, que dirá de alcançá-la. Mas a idéia que se tinha, era que o homem também deveria fazer sua parte para ser aceito por Deus, é como se diz hoje: 50 % é nosso, e 50% é de Deus. Não! A Bíblia não ensina isso, ela diz “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia”.
A Graça de Deus é como quando recebemos um presente de alguém a quem ofendemos muito ou alguém a quem fizemos muito mal. É uma surpresa, recebemos um ótimo presente sem merecê-lo. Se isto acontecesse pensaríamos: Mas por que recebi isso, eu tenho sido mal, rude, tenho ofendido a essa pessoa e ao invés dela me odiar, ela me presenteia? Isto é graça! Agora, se por outro lado, usando o mesmo exemplo, se nós fôssemos a essa tal pessoa antes de tudo, e pedíssemos perdão, conversássemos, fizéssemos as pazes, e só depois ela nos desse um presente, isto não seria graça, você estaria merecendo aquilo, pois você mesmo tomou a atitude de se reconciliar com ela primeiro, ela então retribuiu. É assim que alguns imaginam que acontece com Deus, nós primeiro temos que fazer por onde, ai Deus vem e nos concede sua graça. Isto é tão absurdo quanto tolo.
Antes da Reforma as pessoas eram ensinadas a se sacrificarem muito para receberem a salvação, pois eram ensinadas que as boas obras também influenciavam nesse processo. Não nego que as boas obras devem estar na vida do cristão, mas somente como conseqüência da salvação, e não como condição para recebê-la. Hoje temos visto um retorno a essa heresia por parte de alguns protestantes. Lamento que muitos estejam abandonando a verdade sagrada para dar razão à sua própria concepção de justiça. Quando olhamos para a Graça de Deus, só podemos atentar sua grandeza e amor. Se quisermos explicá-la em termos humanamente justos teremos sérios problemas. Nos basta o que a Escritura diz, “pela graça sois salvos”. Os Reformadores foram iluminados por entenderem quão preciosa é a Graça de Deus, quão eficaz ela é. Somente a Graça pôde conceder salvação ao homem, não foram os seus próprios esforços ou méritos, porque ele não os tem, e nem pode obtê-los. Quem tem a ousadia de alegar que merece a salvação porque tem sido bonzinho? Quem cometeria a insanidade de questionar a decisão de Deus e dizer que é digno de ser salvo porque não mata, não rouba, não se prostitui e não ofende ao próximo? Será que existe algum tolo que queria afirmar: Eu sou uma pessoa justa? Veja o que Deus diz sobre você:
“Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam” (Isaías 64.6).
Em contra partida a isso, no Catecismo da Igreja Católica Romana, encontramos o seguinte:
Se o homem pode esquecer ou rejeitar Deus, Deus e que nunca deixa de chamar todo o homem a que O procure, para que encontre a vida e a felicidade. Mas esta busca exige do homem todo o esforço da sua inteligência, a retidão da sua vontade, um coração reto, e também o testemunho de outros que o ensinam a procurar Deus[i]”.
Assim sendo, se espera que o homem busque a Deus por suas próprias forças, com todo o seu esforço, retidão de vontade e coração reto. Ora, exigir todas essas coisas do homem que Paulo descreve em Romanos 3.10-12 é dizer asneiras, é o mesmo que pedir para um deficiente mental escrever um tratado sobre Física Quântica, ou pedir a um cego que descreva o conteúdo de uma pintura exposta em uma parede numa galeria de arte.
Quando excluímos qualquer participação humana no processo de salvação, então atribuímos apenas a Deus toda a glória, pois o apóstolo disse: “para que ninguém se glorie”. Se toda a glória é redundante a Deus, logo só resta a Graça. Se é por graça, não existe méritos (nem anterior e nem posteriormente à conversão). Em seu livro De Servo Arbitrio, Lutero disse algo muito interessante:
“O ensino paulino é perfeitamente claro, não existe tal coisa como mérito humanos aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do “livre arbítrio”, estabelecendo em seu lugar apenas a Graça Divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para a nossa salvação; ela depende inteiramente da graça divina[ii].” (De Servo Arbitrio, A Escravidão da Vontade).
Eu acredito plenamente na Graça de Deus que operou eficazmente para a minha salvação. E isto sem qualquer participação minha, mas uma obra da absoluta misericórdia Divina. Eu não poderia confessar diferente de Lutero e de Calvino e dos demais reformadores, tenho que concordar: Sola Gratia!


[i] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Primeira Parte, Primeira Secção, Capítulo Primeiro §30 – Disponível no site do Vaticano – http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html.
[ii] DE SERVO ARBITRIO, MARTINHO LUTERO - Publicado originalmente em 1525, Edição atual publicada sobre o título “Nascido Escravo”, por Cliffor Pond, edição de J. K. Davies – Ed. Fiel, Copyrigth 2007.

27 de janeiro de 2011

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Inicio agora uma série de postagens sobre os cinco solas da Reforma.
“Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solo Christos, Soli Deo Gloria”
É uma expressão em latim que ficou conhecida como o lema dos reformadores que reivindicavam o retorno urgente às Escrituras e a genuína pregação da palavra de Deus. No intuito de promover uma fé sadia e um cristianismo autêntico, submisso apenas a autoridade real de Cristo, eles idealizaram o que podemos chamar de máxima da reforma. São cinco elementos que deveriam caracterizam a genuína Igreja de JESUS Cristo. Então, chegou-se a seguinte conclusão: Somente a Escritura, somente a graça, somente a fé, somente Cristo, somente a Deus a glória!

Sola Scriptura – Somente a Escritura
A Igreja antes da Reforma se via inundada por um mar de erros teológicos e administrativos. Tinha mais caráter de estado do que religião, alguns chegavam a comparar os papas aos antigos imperadores romanos. O luxo do qual o clero desfrutava chegava a níveis absurdos e tolos. Diante desta situação, Lutero se insurgiu e desafiou toda a autoridade papal e eclesiástica da sua época. Uma das coisas pelas quais ele lutou foi pela supremacia da Escritura. Naquele tempo a Bíblia (todos sabemos disso) era vedada as demais pessoas. Apenas o clero tinha acesso a estudar a palavra de Deus. Na missa a Bíblia era lida de costas para a igreja e em latim, não havia tradução na língua materna dos ouvintes. Dessa forma não havia ensino, não havia exortação, as pessoas ficavam à mercê do que o sacerdote queria dizer e pronto, elas não tinham como saber se  o que estava sendo pregado estava ou não de acordo com a palavra de Deus.
Lutero defendeu a livre interpretação das Escrituras e o livre acesso delas a todas as pessoas, independente de possuírem pouca ou nenhuma instrução. Razão pela qual traduziu as Escrituras do extinto latim para a língua alemã, mas não o alemão erudito falado pelos filósofos e intelectuais, mas o alemão simples, falado pelas donas de casa, pelos operários, pelo simples camponês. Colocando a palavra escrita de Deus nas mãos das pessoas, agora elas podiam examiná-las e estudá-las, e conferirem se o que o sacerdote dizia no púlpito estva de fato crivado pelas sagradas letras.
Não bastava apenas ter livre acesso a Bíblia, ela também deveria ser reconhecida como única autoridade e regra de fé. Havia no sistema romano (e até hoje) a estúpida idéia de que a “tradição da igreja” também possui o “status” de Escritura. As decisões tomadas pelos concílios e as interpretações feitas pelo papa deveriam ser acatadas com a mesma submissão que é devida à Bíblia. Alegavam a infalibilidade papal, isto é, o papa não pode errar e nem induzir a igreja ao erro.
A Reforma nos ensina que somente a Escritura encerra todo o propósito de Deus para o homem. Nela está suficientemente relatada a vontade divina quanto à salvação dos pecadores e o modo pelo qual devemos viver para agradar a Deus. Não há necessidade de outra fonte se não a Escritura, e nenhum outro livro é tão importante quanto ela. Na Confissão de Westminster, lemos:
Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, ... todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática... A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida,não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é apalavra de Deus... O Velho Testamento em Hebraico... e o Novo Testamento em Grego...,sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal... O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura”.(I, 2,4,8,10).
Quando a Bíblia é retirada de seu lugar de honra, cai-se nos erros que a igreja romana impôs ao longo de séculos. As doutrinas dos homens são introduzidas dissimuladamente e astuciosamente para enganar os eleitos. Um exemplo disso é o ensino do purgatório. Não existe nada nas Escrituras sobre esse possível lugar onde as almas receberiam uma segunda chance. Mas essa falsa doutrina foi inventada para sustentar o comércio de indulgências, onde se pagava para se obter o perdão dos pecados. O maior vendedor de indulgências e contemporâneo de Lutero era Juan Tetzel. Ele dizia que quando uma moeda caia em sua sacola, uma alma saia do purgatório e entrava no paraíso. Por que as pessoas sofriam isso? Primeiro porque não podiam contestar, pois não tinham acesso a Escritura para confrontar esta aberração, e segundo porque todas as decisões do clero eram recebidas como infalíveis e eram o mesmo que Deus falando. Vemos então que a reforma foi fundamental para mudar radicalmente essa situação, hoje o que o papa diz (para nós que temos a mente revelada por Deus) não passa de asneiras e tolices.
A Bíblia, e somente ela, é infalível. As Escrituras são a nossa única regra de fé, e não a tradição engendrada por concílios e homens corruptos, sem o mínimo de reverência e temor de Deus. O Rei Davi disse em dos seus salmos:
“Também levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos, que amo, e meditarei nos teus estatutos” (Salmo 119.48).
Ele estava se referindo às Escrituras Sagradas e não às decisões maliciosamente formadas por homens que se consideram os substitutos de Deus na terra.
Quando interpelado sobre suas posições, Lutero afirmou:
É impossível retratação, a não ser que me provem que estou laborando em erro, pelo testemunho das Escrituras ou por uma razão evidente; não posso confiar nas decisões dos concílios e dos Papas, pois é evidente que eles não somente têm errado, mas se têm contradito uns aos outros. Minha consciência é cativa da Palavra de Deus, e não é seguro nem honesto agir-se contra a consciência. Assim, que Deus me ajude. Amém”.

Hoje infelizmente vemos que a Igreja está caindo novamente nos mesmos erros do passado. Agora ao invés de dar crédito à tradição, ela quer dar “status” a revelações, experiências espirituais, fenômenos e mais uma vez abandona a simplicidade das Escrituras. Mas graças a Deus que quando coisas assim acontecem, ele providencia um remanescente que não se dobra diante desses equívocos, assim como no tempo de Lutero. E este remanescente somos nós, os que abraçamos a Fé Reformada, a genuína pregação do Evangelho de Cristo, nós os que reconhecemos a soberania de Deus e a sua inerrante Palavra como a única regra de fé e conduta para o viver cristão.

Aqueles que têm a mente de Cristo, confessam com grande alegria: Somente a Escritura!

Pr. Samuel