5 de setembro de 2017

O Difícil Caminho da Reforma

Estamos a poucos dias do aniversário de 500 anos da Reforma Protestante e a igreja brasileira não tem muito o que comemorar. Apesar do aumento do interesse de muitos pela fé histórica e reformada nessas últimas décadas, ainda há muito por fazer. O evangelicalismo tupiniquim carece de boa teologia, pregadores fiéis aos princípios bíblicos e uma membresia com vida cristã prática. A explosão de seitas pentecostais e hiperpentecostais, propagação ainda em vigor da teologia da prosperidade e confissão positiva, aparecimento de pseudoapóstolos, bispos, patriarcas e missionários, exigem posturas mais firmes e radicais por parte da liderança e dos cristãos que preservam os valores do cristianismo puro e simples, herdados da Reforma. Não temos feito o suficiente. A igreja não tem conseguido influenciar significativamente o cenário crítico no qual estamos vivendo, e passo a elencar alguns dos problemas em minha percepção.

PERDA DE IDENTIDADE
Algumas igrejas históricas estão perdendo sua identidade. A influência do pentecostalismo sorrateiramente penetrou em seus arraiais de tal maneira que tem levado muitos líderes a abandonarem a liturgia cristocêntrica e abraçarem práticas e costumes que vão contra a boa teologia bíblica. Fazem isso com o propósito de conquistar crescimento quantitativo enquanto desprezam o qualitativo. Deixam de lado documentos importantes que ajudaram a erguer o protestantismo histórico como os catecismos, confissões de fé e manuais de culto, para lançar mão de técnicas de gestão de pessoas e conceitos sociológicos que na verdade não passam de iscas humanistas para atrair e manter pessoas na comunidade local. Desde as músicas cantadas na adoração até a forma e conteúdo dos sermões pregados, vemos uma fuga absurda de tudo o que foi conquistado pelos Reformadores com suor e sangue.

POLITICAMENTE CORRETO
Jesus não era politicamente correto. Os apóstolos também não foram. Por que será que a igreja hoje tem que ser? O tom polido, cauteloso e suave com o qual alguns afirmam propagar o Evangelho contrasta e muito com a agressividade, firmeza e convicção da igreja primitiva. Citando um exemplo mais próximo de nós, lembro-me do reformador John Knox, que não temia em repreender a própria rainha quando percebia que esta insistia em conversar durante um sermão que ele proferia. Os cristãos bíblicos são ousados e intrépidos, ensinam com autoridade, pois imitam ao seu mestre e agem sob a confirmação e poder do Espírito Santo. Não vejo muitos santos inflamados de paixão pelas verdades sagradas hoje. É tudo feito com muita cautela e parcimônia para não ferir os ouvidos alheios e não ofender as ovelhas em potencial. Esse evangelho pregado "pisando em ovos" tem feito um grande desfavor ao Reino de Deus.

TRIUNFALISMO
Eu chamo de triunfalismo o costume de enfatizar as bênçãos concedidas com a salvação e que são méritos de Cristo em detrimento da nossa miserável condição como pecadores. É muito mais agradável ouvir "Tu És mais que vencedor" do que "miserável homem que sou". Alguns argumentam de que deve haver um equilíbrio, pois ambas são realidades da vida cristã e, portanto, devem ser proclamadas de igual forma, sem pender mais para um lado do que para o outro. Entretanto, o que vejo é que aqueles que isso defendem não o fazem como afirmam, pois sempre quando falam nos valores que nos foram atribuídos por causa de Cristo, dificilmente tocam na pecaminosidade que ainda reside em nós e que nos torna completamente indignos do bem que recebemos e possuímos. Essa forma de proceder atrai grande quantidade de pessoas cuja conversão carece de frutos genuínos e mais parecem estar interessadas em ouvir um "terapeuta de púlpito" que lhe diga "paz, paz, paz" do que um atalaia que os alerte com "a espada vem vindo".


Pb. Samuel


Continua em breve...