18 de dezembro de 2010

Posted by Samuel Balbino | File under : , , ,

ACERCA DOS DONS – “A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes”. (1ª Coríntios 12.1). Não parece um paradoxo o apóstolo Paulo ter escrito isso aos irmãos de Corinto e hoje, mais de dois mil anos depois, eu estar tratando ainda desse assunto? Infelizmente vamos encontrar muitos paradoxos como esse no cristianismo moderno. A teologia pentecostal (se é que podemos chamar assim) coloca muita ênfase no uso dos dons (charismata no grego, daí o nome carismático). Eu falei no post anterior sobre o batismo ou o “selo” com o Espírito Santo, e deixei bem claro que não existe ligação direta ou necessária deste com a concessão do dom de línguas. Agora quero abordar com mais detalhes a questão dos dons espirituais e o famigerado dom de línguas, ou como dizem “as línguas estranhas”!
Durante oito anos da minha vida eu vi pessoas falarem em línguas dizendo estarem sentindo a ação do Espírito de Deus. Cheguei a presenciar pessoas que ficavam como se estivesse em uma espécie de transe, pois ficavam totalmente fora de si, se tremiam, choravam, gritavam, batiam nos bancos, se tornavam quase incontroláveis. Eu via isso e achava que era normal, realmente acreditava que fosse algo de Deus, ainda que por vezes quisesse rir daquelas cenas. Hoje eu vejo que realmente tinha razão em querer rir, aquilo nada tem a ver com uma manifestação do Espírito Santo, são apenas pessoas induzidas a um estado frenético de histeria por uma sugestão bem aplicada por um pregador ou quem quer que seja.
A Bíblia fala de dons (Ef 4.7-11) e de manifestações do Espírito (1ª Co 12.7). O pentecostalismo enfatiza com grande avidez o dom de língua, de cura, de profecia e de revelação. Mas será que realmente esses dons continuam valendo para hoje? Talvez alguém diga: É claro! Eles são muitos úteis à Igreja! Não existe embasamento bíblico algum que evidencie a permanência dos dons extraordinários para os dias de hoje. O próprio Paulo nos diz que esses dons tinham um tempo limitado de atuação (1ª Coríntios 13.8). Isso quer dizer que o que temos visto hoje dentro das denominações pentecostais e carismáticas não passam de equívocos.
Sobre os dons em geral – Encontramos referências aos dons em (Romanos 12.6-8), depois (1ª Coríntios 12,13,14), finalmente em (Efésios 4.7-13). Lendo essas passagens podemos chegar às seguintes conclusões: a) Existem dons “miraculosos” ou extraordinários, e dons ordinários ou simplesmente não miraculosos. b) Os dons visam um fim proveitoso (1ªCo 12.7), o aperfeiçoamento dos santos em seu serviço, e por fim o crescimento espiritual da Igreja (Ef 4.12-15). c) Os dons miraculosos ou extraordinários tiveram uma função especial, serviram como sinais para incrédulos (1ª Co 14.22) e para credenciar aqueles que os possuía, ou seja, confirmavam a autoridade apostólica (2ª Co 12.12).
Os dons extraordinários cessaram – Os dons que os pentecostais tanto defendem não mais existem hoje, eles foram fundamentais no estabelecimento da Igreja, depois, com a sua consolidação, eles não são mais necessários.
Cura: JESUS curou muitas pessoas no seu ministério terreno, mas ele deixou bem claro qual era o propósito desses milagres, “Se, por ventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis” (João 4.48). Eles autenticavam a sua autoridade e o identificavam como o Messias prometido à Israel. Com a Igreja aconteceu o mesmo, os sinais de cura apontavam para a credibilidade do ministério apostólico, com a conclusão das Escrituras não é mais necessária uma confirmação adicional para os dias atuais. O apóstolo Paulo que curou a tantas pessoas na sua velhice sofreu de uma doença na visão (Gálatas 4.15; 6.11) e Timóteo tinha “freqüentes enfermidades” (2ª Timóteo 5.23), será que Paulo perdeu a fé para ser curado? Será que Timóteo não poderia ter “determinado” a sua cura como fazem hoje? Por que Paulo não foi lá impor as mãos sobre ele para curá-lo, ao invés disso, recomendou-lhe que bebesse vinho (que era tido como um medicamento na época)? Isso não aconteceu porque a essa altura a Igreja já estava bem estabelecida e não era mais necessária a confirmação ministerial através dos milagres.
Profecia e revelação: Aqueles que dão crédito as essas novas profecias e revelações estão dizendo que a Bíblia não é suficiente. Tudo o que precisamos saber esta lá. Por pensar o contrário, muitos estão sendo levados a ouvirem os homens e não as Escrituras. A Bíblia é a única regra de fé, o que ultrapassar isso é heresia. “O Espírito usou a revelação para estabelecer o registro objetivo da Palavra de Deus. Uma vez que este cânon da Palavra de Deus foi estabelecido, a revelação cessou. Não há mais necessidade dela hoje. Temos contido nas Escrituras, de acordo com o seu próprio testemunho (2 Timóteo 3:15-17; 2 Pedro 1:19-21), o infalível padrão de toda verdade. Temos nela tudo o que é necessário conhecer para a salvação. Não necessitamos de nenhuma revelação adicional de homens”(Rev. Wilbur Bruinsma)
Línguas: Me parece que esse é o dom mais amado pelos irmãos pentecostais. Geralmente usam o texto de Marcos 16.17 para enfatizarem, pois diz “falarão novas línguas”. Mas o mesmo versículo diz que são “sinais”, o que é ratificado por Paulo, “De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos” (1ª Coríntios 14.22). O que significa um sinal? Um sinal aponta para alguma coisa que vem adiante. Vou dar um exemplo que ouvi alguém dizer uma vez. Imagine que você vem em uma rodovia qualquer com o seu veículo. De repente você vê uma placa dizendo “restaurante 2 Km à frente”. Isso é um sinal indicando a você que existe um restaurante logo adiante. Ele foi necessário, mas depois você não precisará mais dele. Assim podemos compreender o dom de línguas. Quando Deus concedeu que os discípulos falassem em outros idiomas esse era o sinal de que o Espírito agora seria derramado “sobre toda a carne” (Joel 2.28-32). Agora a Igreja não seria limitada à somente Israel, mas de todos os povos, nações e línguas. Aqueles que viveram com JESUS nos dias de sua carne, receberam esse sinal como uma confirmação que a salvação não era somente para os judeus, mas também para os gentios. Quando e Espírito Santo desceu pela primeira vez sobre os gentios, veja qual foi a reação dos judeus: “Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, ADMIRARAM-SE, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo à Deus” (Atos 10.44,45). Era como se Deus estivesse dando um banho de água fria nos irmãos judeus que não admitiam nós gentios como parte da Igreja. O falar em outros idiomas permitiu que a mensagem chegasse a todos os povos da época. Mas como o sinal é temporário, ele não é mais necessário hoje, já temos o testemunho dos apóstolos dizendo que a salvação deve ir até os confins da terra.
Outra coisa interessante é que os irmãos pentecostais não obedecem às recomendações de Paulo quando ele exorta acerca do dom de línguas (recomendações que ele escreveu enquanto vigorava esse dom). A Igreja de Corinto estava dando muita ênfase às línguas e o apóstolo a corrigiu por isso. Na visão de Paulo as línguas só têm sentido se forem compreendidas, por isso na Igreja só deveria ser falada se houver quem interprete (1ª Coríntios 14.27,28), pois “se com a língua, não disserdes palavras compreensíveis, como se entenderá o que dizes?” (1ª Coríntios 14.9). Incrivelmente acontece o que o apóstolo deduziu, a igreja toda falando em línguas, quando entra um indouto ele pensa: Está todo mundo louco! (14.23). É o que vemos nos cultos pentecostais.
Precisamos focar a nossa atenção no que realmente interessa, a pregação do Evangelho e a nossa comunhão com Deus. Se você espera realizar isso indo em busca de sinais miraculosos hoje infelizmente estará indo por um caminho incerto e perigoso.
No próximo post falarei sobre o título “pentecostal”.

Pr. Samuel

6 comentários:

O Primeiro Amor disse...

Com certeza é verdadeiro! O Jesus que sigo na Universal.

Emília Q.C disse...

É tão interessante e lamentável Pr. Samuel, nada ter mudado. A Igreja de Corinto ainda está aqui em nosso meio, nas inúmeras Igrejas Pentecostais. Parabéns pelo seu Blog, visitei e quero voltar!

Minhas Poesias Irradiantes disse...

É Um benção este post que faz referência aos "Dons de Línguas", que irei fazer a indicação em postagem na Rede Social de Notícias diHITT com link para o seu site, ok!

Julio Cesar Schvambach disse...

Pastor Samuel, em primeiro lugar, parabéns pelo seu blog. Contém mensagens edificantes e cristocêntricas, que conduzem a um resgate dos valores iniciais da fé cristã. Admiro muito o seu trabalho, porém, desta vez vou ter que discordar de você. Não tiro sua razão quando critica a conduta de muitas denominações ditas "pentecostais", e principalmente das neopentecostais, pois sinto tanta indignação com a deturpação da mensagem bíbica por parte destas quanto o irmão. Mas daí afirmar que os dons cessaram já é querer ultrapassar o que está escrito. Os dois extremos são perigosos: tanto a falta de discernimento dos uso dons quanto à negação dos mesmos.
1 Co 13:8 de forma alguma indica prazo de validade pros dons espirituais, pois o autor fala do dom maior, que é o Amor. Realmente, sem o Amor, a fé se torna fanatismo e os dons, que deveriam servir o corpo de Cristo se tornam veneno mortífero. O mesmo capítulo fala também "...Havendo Ciência, desaparecerá...", no entanto, eu nunca vi um cessacionista dizendo que a Ciencia acabou, o que seria absurdo.

Quanto às linguas estranhas, o próprio Apóstolo Paulo afirma que ele é o que falava mais linguas (I Co 14:18. Antes que você me afirme que estas línguas eram outros idiomas, vamos analisar os versículos anteriores: "Pelo que, o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar.
Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera."I Co 14:13,14. Ora, se estas línguas fossem, de fato, humanas, não haveria necessidade de eu orar para receber o dom, vindo da parte de Deus, de interpretá-las, é só entrar numa escola de idiomas e aprender. Os dons espirituais foram úteis no passado e ainda continuam sendo, enquanto a igreja estiver na terra precisaremos deles. Não me leve a mal, o irmão sabe o quanto eu o respeito, mas como fazem os santos, devemos exortar, não para ridicularizar ou achar-se superior, mas para a edificação de todo o Corpo.

Com amor em Cristo Jesus,

Julio Cesar Schvambach

O Tempo e Igreja Reflexões Reformadas disse...

Os dons que se evidenciam na era pós-apostólica , do meu ponto de vista, enquadram-se neste texto;

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. (Mt 7.22-23)

Ouve um tempo em minha vida, em que eu também acreditei possuir tais dons. Eu perdi mais de dez anos no equivoco pentecostal. Hoje confesso que naquele tempo (ignorância) eu não conhecia Cristo , embora fosse já conhecido por Ele.

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; (At 17.30)

Pastor Samuel, parabéns pelo ótimo blog e pelo irrefutável artigo.

Adriano disse...

Saudações!!!
Caro Samuel primeira vez aqui como comentador e só tenho a parabeniza-lo pelo blog e pela defesa do evangelho, quanto ao post a minha opinião sobre o assunto é a mesma do Julio Cesar.
Ao irmão Clóvis que estimo muito nesta passagem utilizada por ele entendo que a chave destes versículos é a iniquidade e não os sinais operados, pois os sinais devem ser para glorificação do nome de quem opera e sinal para os que estão fora mas o problema é querer esconder atras dos sinais para pratica da iniquidade.
Em Cristo
Adriano