21 de março de 2011

Posted by Samuel Balbino | File under : , , ,
  
por Vincent Cheung

 "Deus… nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas obras, mas por causa da sua própria determinação e graça. Esta graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos…" (2 Timóteo 1.9)

Cristo é aquele que salva, mas a Escritura ensina que nem toda pessoa é salva. Qual é a diferença entre aqueles que são salvos e aqueles que permanecem não salvos? Reformularemos a pergunta. A Bíblia ensina que somente aqueles que creem em Jesus Cristo, somente os cristãos, são salvos. Os não cristãos queimarão no inferno para sempre. Por que algumas pessoas se tornam cristãs, enquanto outras não? Qual é a diferença entre os homens, que alguns creem em Cristo, enquanto outros recusam crer nele?

Paulo diz que Deus nos salvou “não em virtude das nossas obras”, mas “por causa da sua própria determinação e graça”, e que essa graça foi dada “desde dos tempos eternos”. As referências a obras, ao propósito divino, à graça divina, e ao tempo, são altamente significativas. Paulo usa essas referências para indicar uma teologia definida sobre a questão, uma forma particular de pensamento. Principalmente, por essas expressões ele atribui tudo da salvação a fatores internos ao próprio Deus sem qualquer consideração de algo no homem. Estou enfatizando isso porque algumas vezes as pessoas pegam uma dessas referências e distorce-as para abrir espaço para teorias sobre a salvação que são alheias ou mesmo contrárias ao pensamento de Paulo. Contudo, quando deixamos de ignorar suas claras explanações, levando em conta o que o apóstolo diz, frequentemente dentro da mesma passagem, veremos que ele não deixa lugar para aberturas ou interpretações alternativas.

Em Romanos 9, ele oferece uma exposição comparativamente extensa sobre a doutrina da soberania de Deus na salvação. Os versículos 11-13 dizem: “Todavia, antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má — a fim de que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama — foi dito a ela: ‘O mais velho servirá ao mais novo’. Como está escrito: ‘Amei Jacó, mas rejeitei Esaú’”. Observe as referências similares a obras, à propósito divino, e a tempo. Graça, e ideias relacionadas como misericórdia, aparecem logo após. Quando diz respeito a obras, Paulo nega que a salvação seja baseada em nossas obras. Aqui ela está combinada com as referências a tempo. Dessa forma, ele escreve que a questão foi determinada antes dos gêmeos nascerem e antes deles terem feito bem ou mal.

Eu mencionei aberturas acima, pois aqui é onde as pessoas tentam injetar suas teorias para evitar o claro ensino da Escritura. Eles dizem que é verdade que o destino dos gêmeos foi determinado antes deles nascerem e antes de terem feito algo, mas talvez essa determinação foi baseada em coisas que eles iriam fazer. Isto é, talvez Deus baseie sua decisão em seu conhecimento do futuro, do que os homens decidiriam e fariam.

Primeiro, mesmo que não haja nada na passagem para contradizer isso, nada é dito em suporte dessa teoria, de forma que ela não é nada mais que especulação sem fundamento. Segundo, a passagem inteira de fato contradiz isso. As obras dos gêmeos são contrastadas com algo que é definido e explícito, a saber, o propósito e chamado de Deus. Ele escreve: “… antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má… a fim de que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse”, e “… não por obras, mas por aquele que chama”. O contraste não é entre obras passadas e obras futuras, mas entre obras humanas e propósito divino. Se não pelo fato que os homens são tendentes a pensar na salvação como sendo baseada em suas próprias obras, a simples afirmativa que a salvação é baseada no propósito de Deus seria suficiente para excluir todas adições ou alternativas. Em outras palavras, negar que a salvação é baseada nas obras do homem é apenas uma aplicação da verdade que a salvação é baseada na decisão e graça soberanas de Deus.

Isso é confirmado por declarações explícitas que seguem imediatamente. O versículo 16 diz: “Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus”. Aqui ele separa sua referência ao homem do tempo passado, e declara abertamente que a salvação não depende do desejo ou esforço do homem. Não é que a salvação seja independente do desejo ou esforço passado do homem, deixando lugar para a salvação residir no desejo ou esforço futuro do homem, mas sim que ela é independente de qualquer desejo ou esforço no homem. Ela é baseada em alguém ou algo totalmente diferente, a saber, em Deus e na sua misericórdia.

O calvinismo popular ou a teologia reformada não é poupado por essa passagem. Ou para declarar a questão a partir de outra perspectiva, ele também tenta encontrar aberturas na Escritura a fim de afirmar suas próprias teorias e preferências. Essa tradição teológica geralmente afirma a eleição incondicional, em que Deus escolhe salvar alguém não por causa de algo bom nessa pessoa ou algo bom que a pessoa fará, mas frequentemente nega a reprovação incondicional. Contudo, Paulo coloca as duas coisas em pé de igualdade. Ele diz, “… antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má” – não “fizessem qualquer coisa”, ou “fizessem qualquer coisa boa”, mas “fizessem qualquer coisa boa ou má”.
Novamente, as referências a tempo não deixam lugar para obras futuras, mas têm a intenção de negar totalmente o papel das obras, quer boas ou más. Então, tendo negado o papel das obras, quer boas ou más, Deus escolhe amar Jacó e odiar Esaú. Assim como Deus escolhe quem salvar sem consideração de boas obras, quer passadas ou futuras, Deus escolhe quem condenar sem consideração de pecado, ou obras más, quer passadas ou futuras. Estamos dizendo que Deus envia alguns homens para o inferno que são justos ou moralmente neutros? Sem dúvida não – aqueles a quem ele escolheu condenar, ele também faz com que sejam injustos. O infralapsarianismo e a reprovação condicional são uma rejeição direta do ensino apostólico.

E novamente, esse ponto é explicitamente declarado mais tarde. O versículo 18 diz: “Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer”. O versículo 21 usa uma imagem para estabelecer o mesmo ponto: “O oleiro não tem direito de fazer do mesmo barro um vaso para fins nobres e outro para uso desonroso?”. Ele não usa barro “bom” para fazer vasos nobres e barro “mau” para fazer vasos comuns. Ele usa o mesmo barro para fazer algumas pessoas boas, e algumas pessoas más.

Romanos 9 é uma passagem mais completa, mas Paulo pretende apresentar a mesma doutrina em 2 Timóteo. Quando ele diz que Deus nos salvou “não por causa de algo que nós tenhamos feito” (2Tm 1.9, NIV), ele não deixa lugar para algo que nós faremos. Essa é a forma como ele fala quando pretende excluir todas as obras humanas, quer passadas ou futuras, e não somente isso, pois ele pretende excluir o papel do homem completamente. Essa é simplesmente sua forma de dizer que a salvação não é de forma alguma baseada sobre algo em nós. Ele não nega o papel das obras humanas na salvação apenas para atribuí-la a outra coisa no homem, ou a algo que o homem faça. Antes, ele atribui a salvação à “própria determinação e graça” de Deus. Uma pessoa é salva porque Deus a escolhe, e Deus a escolhe por razões que são internas ao próprio Deus.


Fonte: Reflections on Second Timothy
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto, julho/2010

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