14 de dezembro de 2011

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Por Richard Gaffin

É visão amplamente difundida hoje que todos os dons mencionados em Romanos 12, I Coríntios 12, e Efésios 4 foram dados para permanecer na igreja até o retorno de Cristo. A percepção de que certos dons cessaram é vista como um estratagema desesperado, em flagrante descuido para com o claro ensino bíblico, algo pouco convincente, uma racionalização a posteriori de uma igreja embaraçada pela ausência destes dons em seu meio. Não obstante, há várias linhas de ensino do Testamento Novo que, na sua convergência, apontam para a conclusão de que a profecia e as línguas foram designadas para cessar antes do retorno de Cristo, e de fato cessaram. Neste capítulo, serão esboçadas estas linhas, algumas delas mais completamente que outras.

A. A Natureza Temporária do Apostolado
Passando por sobre os detalhes do debate que tem envolvido muito os eruditos bíblicos sobre o papel do apóstolo, é uma generalização justa dizer que no Novo Testamento o termo tem uma de duas referências básicas: (1) pode se referir ao representante de uma igreja em particular, a quem temporariamente foi delegada uma tarefa específica (II Cor. 8.23; Fp 2.25; talvez Atos 14.4, 14). (2) A mais importante e dominante referência, tal como aparece em I Coríntios 12.28, 29 e Efésios 4.11, é quanto aos apóstolos de Cristo. Neste último sentido, os apóstolos são limitados em número (quantos, pode permanecer uma questão aberta aqui), e confinados à primeira geração da história da igreja. Este caráter temporário do apostolado pode ser visto de vários ângulos: (1) uma exigência era que o apóstolo fosse uma testemunha ocular e auditiva do Cristo ressuscitado (João 15.27; Atos 1.8, 22; 10.41). Paulo considera esta exigência como tendo sido atendida no caso dele pelo aparecimento de Cristo a ele na estrada de Damasco (I Co 9.1; 15.8e.d.; cf. Atos 9.3-8; 22.6-11; 26.12-18). (2) Paulo sugere que ele é o último dos apóstolos (I Co 15.8e.d.: “... último de todos... o menor dos apóstolos...”; talvez também 4.9: “...a nós, os apóstolos, em último lugar,” onde, provavelmente, “nós” não inclui Apolo [v. 6] mas é limitado a Paulo, desde que as experiências atribuídas a “nós” nos versos imediatamente seguintes [9b-13] são melhor compreendidas como a própria experiência individual de Paulo). (3) As Epístolas Pastorais tornam claro que Paulo vê Timóteo, mais do que qualquer outro, como o sucessor pessoal dele. A tarefa do ministério do evangelho designada por Paulo deve ser assumida e continuada por Timóteo (e outros). Mesmo assim, Paulo nunca o designa como apóstolo. De acordo com o Novo Testamento, “sucessão apostólica” em um senso pessoal é uma contradição em termos. A atividade dos apóstolos na igreja é “de uma vez por todas”. Qualquer um que esteja trabalhando com o Novo Testamento é então compelido a reconhecer o caráter temporário do apostolado. Esta conclusão tem sido negada ao longo da história da igreja e ainda há hoje os que resistem a ela. Com eles nós temos que dividir a companhia sobre este ponto, lamentavelmente. Mas onde for aceita, várias outras conclusões se tornam envolvidas. Por um lado, com tudo que é singular e preeminente sobre o ofício do apóstolo, posto que Paulo lista este dom como um (o primeiro) entre outros dons dados à igreja (I Co 12.28e.d.; Ef 4.11), há que se notar claramente não ser o caso que todos os dons mencionados por Paulo devam continuar até a volta de Cristo. Tampouco, por consequência, defender a posição de que um (ou mais) destes dons tenha sido retirado há de implicar, necessariamente, na negação da autoridade e aplicabilidade contínua da Bíblia. Além do mais, a distinção apostólico-pós-apostólico não é imposta sobre o Novo Testamento e sobre a história da igreja, mas é determinada pelo próprio Novo Testamento. As epístolas pastorais, em particular, são escritas para efetuar a provisão para o futuro pós-apostólico da igreja. Por conseguinte, a demanda que compromete a todos os que reconhecem a natureza temporária do apostolado, especialmente devido à sua importância óbvia e central, é determinar que elementos da vida da igreja são, assim, tão integralmente associados com o ministério dos apóstolos, a ponto de terem desaparecido junto com a cessação do apostolado, e quais elementos continuam no período pós-apostólico da igreja.

B. O Caráter Fundacional do Testemunho Apostólico
A atividade singular mais importante dos apóstolos seguramente é aquela já salientada, a saber, de testemunhas de Cristo (por exemplo, João 15.27; Atos 1.8; 13.31). Os apóstolos exibiram um testemunho autorizado e revestido de poder pelo próprio Cristo, concernente à sua ressurreição, como sendo o cumprimento da história do pacto (por exemplo, Lucas 24.48; Atos 1.22; 2.32; 4.33; 10.39-41). Por causa da centralidade e das implicações de longo alcance da morte e ressurreição de Cristo, este testemunho é uma interpretação abrangente de sua pessoa e obra. Não é limitado à proclamação dos fatos básicos do evangelho aos incrédulos. Antes, é de uma só essência com, ou melhor, é a totalidade da pregação e ensino apostólicos, seja oral ou escrito (II Ts 2.15). Consiste em declarar nada menos que “todo o conselho de Deus” (Atos 20.27), revelado na vinda do reino de Deus (por exemplo, v. 25) e a revelação do mistério em Cristo (por exemplo, Rom. 16.25e.d.), para a salvação do seu povo e a renovação de toda a criação (II Co 5.17; Ap 21.5).

Talvez a mais ampla perspectiva desta tarefa de testemunha seja oferecida em Efésios 2.19e.d. Nesse texto Paulo vê a igreja da nova aliança (conf. vv. 11e.d.) como o resultado da grande atividade de edificação de Deus no período entre a ressurreição e a volta de Cristo (conf. II Pe 2.4-8). Laborando desse modo, Paulo denomina os apóstolos, juntamente com Cristo, como a base, o fundamento da igreja-edifício (v. 20). Não é dito isto para que se ofusque ou se negue a superioridade da pessoa e da obra de Cristo como fundamento exclusivo da igreja (I Co 3.11), mas para incluir os apóstolos e a atividade deles dentro de um objetivo específico. Os apóstolos suplementam a obra de Cristo, não por expiação adicional ou por realizações redentivas de sua parte, mas pela sustentação do testemunho acerca da obra de Cristo. Em termos desta passagem, os apóstolos não são, como Cristo é, a paz que fez judeus e gentios um só, pela destruição da inimizade e pela reconciliação de ambos com Deus, bem como de um com o outro (vv. 14-16). Mas eles são os porta-vozes por meio de quem o Cristo exaltado vem e apregoa a paz-unidade tanto a judeus quanto a gentios (v. 17). A obra de Cristo uma-vez-por-todas, fundacional, consumada na sua morte e ressurreição, é ligada ao testemunho uma-vez-por-todas, fundamental, dos apóstolos com respeito àquela obra. Tal testemunho é antecipado em Mateus 16.18, onde Jesus chama Pedro, em sua confissão (conf. v. 16), na qualidade de representante dos demais apóstolos, de a pedra sobre a qual ele edificaria a sua igreja.

Os apóstolos não fazem parte da fundação por causa de sua precedência cronológica na igreja (se fosse assim, a inclusão de Paulo seria duvidosa; conf. especialmente I Co. 15.8e.d.) ou porque o seu número fosse fixo (o Testamento Novo não tem por interesse delimitar seu número preciso). Nem são eles o fundamento por causa de sua raça (judaica). O ponto da passagem não é a unidade entre judeu e gentio exibida no fato de que gentios sejam edificados sobre um fundamento judeu, mas uma unidade entre judeu e gentio porque ambos são edificados sobre a base, que é Cristo, o qual, junto com os apóstolos e profetas, estabelece o fundamento. Os apóstolos não são parte do fundamento por qualquer razão ou característica de suas pessoas à parte do exercício de suas funções (apostólicas). Por outro lado, o fundamento não é o testemunho apostólico abstraído dos próprios apóstolos. A escolha entre um entendimento pessoal e um impessoal acerca do fundamento é um falso dilema exegético. O fundamento é os apóstolos na qualidade de apóstolos testemunhas, os apóstolos em termos da revelação dada a eles e pronunciada por eles (conf. Ef 3.5).

É também importante perceber que o fundamento aqui é absoluto e histórico em seu caráter. Ele não descreve situações particulares as quais o evangelho alcança pela primeira vez, indiferentemente de tempo e lugar. Antes, é parte de uma imagem histórico-redentiva única, abrangente (edificação)[1], a qual encena, no caso dos apóstolos como também de Cristo, o que é realizado uma única vez, ao início da história da igreja, e não permite repetição. O período, além deste que é fundacional, não é um tempo de reassentar perpetuamente o fundamento, mas é o da superestrutura que é construída em cima deste fundamento (que é definitivamente assentado). A natureza fundacional do testemunho abrangente dos apóstolos nos permite apreciar uma ênfase correlata na “tradição” apostólica a ser rapidamente assumida, como já encontrada em II Tessalonicenses (2.15; 3.6), sobre o “depósito” a ser guardado, nas cartas pastorais (I Tm 6.20; lI Tm 1.14) e na “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Esta ênfase reflete a autoridade conexa do testemunho dos apóstolos e estabelece linhas que preparam e apontam o caminho para o eventual surgimento do cânon do Novo Testamento (veja lI Pedro 3.16, onde as cartas de Paulo são já consideradas no mesmo nível das “demais Escrituras”).


Publicado no Blog Os Puritanos -  ospuritanos.blogspot.com


[1] Entenda-se a idéia da palavra “abrangente” que aqui traduz “comprehensive”, no senso de Atos 20.27 já mencionado – o testemunho apostólico como “todo o conselho (ou desígnio) de Deus” (N. do T.).
Extraído do livro "Perspectivas sobre O Pentecostes", Richard B. Baffin Jr., Ed. Os Puritanos, páginas 97 a 101.
 
 

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