31 de outubro de 2011

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A influência de Martinho Lutero sobre a pregação é digna de consideração. A Reforma aconteceu, afinal de contas, pela restauração da pregação fiel, com Lutero e os outros reformadores abrindo o caminho.

Embora seria um exagero dizer que a pregação tinha sido inteiramente perdida antes da Reforma, é verdade que haviam poucos pregadores fiéis na igreja, e a própria pregação certamente tinha caído em tempos difíceis. O elemento da proclamação, o "assim diz o Senhor" que é o cerne de toda pregação verdadeira, tinha sido quase perdido. Por essa razão, uma das mais importantes contribuições de Lutero à igreja foi sua ênfase sobre a pregação.

O próprio Lutero nos dá uma visão do que a pregação comumente envolvia em seus dias, ridicularizando e desprezando abertamente o que se passava então por pregação na igreja por parte de pastores infiéis. Os sermões eram superficiais, freqüentemente incluindo fábulas ou estórias, bem como uma mistura de filosofia pagã. Além do mais, esses "sermões" eram geralmente comunicados de uma forma vulgar ou cômica, para entreter o povo. Cristo era esquecido. As Escrituras eram negligenciadas.

"Ó, temos tido pregadores cegos por um longo tempo; eles têm sido totalmente cegos, e líderes de cegos, como o evangelho diz; deixaram o evangelho e seguiram suas próprias idéias, preferindo a obra de homens ao invés da obra de Deus."2

Nunca medindo palavras, Lutero falou duramente dos pregadores infiéis:

Esses são os pregadores preguiçosos e inúteis que não dizem aos príncipes e senhores seus pecados. Em alguns casos, nem notam os pecados. Eles deitam e roncam em seu ofício, e não fazem nada que pertença ao mesmo, exceto que, como porcos, ocupam o lugar onde bons pregadores deveriam estar.3

Contra essa corrupção da pregação, Lutero exigia fervorosamente uma pregação bíblica e expositiva. "Foi Lutero quem redescobriu tanto a forma como a substância dessa pregação… Para ele pregação era a verdadeira Palavra de Deus mesmo, e, como tal, ocupava a posição central da Igreja."4 De fato, a ênfase sobre pregar o evangelho se tornou uma das principais marcas das igrejas da Reforma e, como Lutero nunca cansou de apontar, deu propósito bem como autoridade à existência delas.

Pregação com Substância
Martinho Lutero entendia que a pregação fiel deve ter substância. Essa substância é a verdade do evangelho, a exposição fiel da Sagrada Escritura.

A. Skevington Wood resume a pregação de Lutero da seguinte forma: 

A característica saliente da pregação de Lutero era seu conteúdo e referência bíblica. Ele estava preso à Palavra. Sua pregação nunca era meramente tópica. Ele nunca poderia transformar um texto num pretexto. "Eu me esforço para tratar um versículo, para agarrá-lo", ele explicou, "e assim instruir o povo de forma que possam dizer, ‘Era sobre isso o sermão.’" Sua pregação nunca foi um movimento dos homens para o texto; sempre foi um movimento do texto para os homens. O assunto nunca determinava o texto; o texto sempre determinava o assunto. Ele não tinha o hábito de abordar assuntos ou questões, mas doutrinas. Mas quando o fazia, ele invariavelmente seguia uma determinada passagem da Escritura, passo a passo. Ele considerava uma das principais qualificações do pregador ser familiarizado com a Palavra.5

Lutero ensinou claramente a centralidade da Palavra. Fé é nada mais que aderência à Palavra de Deus. É essa Palavra que destrói o pecador pela lei, e levanta o crente no evangelho.

Sua alta estima pela Palavra de Deus explica o porquê Lutero também tentava pregar sistematicamente por toda a Escritura, pregando séries de sermões tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.

Por causa dessa ênfase bíblica sobre a primazia da Palavra e a centralidade da pregação, Lutero não tinha lugar para o falso misticismo que troca a Palavra de Deus pelos sentimentos internos. "Fora com os cismáticos que menosprezam a Palavra, enquanto sentam-se nos cantos aguardando a revelação do Espírito, mas à parte da voz da Palavra!"6

Deve ser observado nessa conexão que Lutero falava da pregação em termos de "a voz." Ele disse: "Observem: o princípio de todo conhecimento espiritual é essa voz de alguém clamando, como Paulo também diz, Romanos 10:14: 'Como crerão… sem um pregador?'"7

Pregação com Autoridade
Lutero ensinou claramente que a pregação que é fiel e verdadeira vem como a autoridade da "voz".
Esse pensamento refletia a alta visão de Lutero do ofício. O ministro é enviado por Deus e entrar no ofício de Deus. "Dessa forma, S. Paulo é confiante (2Co. 13:3) que está falando não sua própria palavra, mas a Palavra do Senhor Cristo. Assim nós, também, podemos dizer que ele a colocou em nossa boca."8

Essa verdade era importante para Lutero, também, em face de toda a oposição que obscurecia seu caminho. Era uma verdade que ele proclamava consistentemente.

Em seu tratamento do Salmo 2, falando do ofício de Cristo como Mestre que declara o decreto de Deus, Lutero explicou que o Espírito Santo assim nos ensina que Deus faz tudo por meio do Filho. Pois quando o Filho prega a Lei, o Pai mesmo, que está no Filho ou é um com o Filho, prega. E quando pregamos sobre esse mesmo decreto, Cristo mesmo prega, como ele diz: ‘Quem vos ouve a vós, a mim me ouve’ (Lucas 10:16).9

O pregador, portanto, é o porta-voz de Deus, o instrumento através do qual Cristo e Deus pregam.
Nós, pastores e ouvintes, somos apenas alunos; há somente uma diferença, que Deus está falando a você por meio de mim. Esse é o poder glorioso da Palavra divina, através da qual Deus mesmo lida conosco e fala conosco, e na qual ouvimos o próprio Deus.10

Comentando sobre João 14:10, Lutero escreve: "Não somos nós que falamos; é o próprio Cristo e Deus. Por conseguinte, quando você ouve este sermão, está ouvindo Deus mesmo. Por outro lado, se despreza este sermão, está desprezando não nós, mas o próprio Deus."11

Pregação e a Obra do Espírito
Porque Cristo fala pela pregação do evangelho, a pregação é poderosa e eficaz na realização do propósito para o qual Deus a envia.

Assim, Lutero chama a atenção em seus escritos para o lugar do Espírito Santo na pregação. Cristo opera essa palavra poderosa por seu Espírito Santo. É através das palavras de pregadores que o Espírito Santo opera, convencendo o mundo do pecado e estabelecendo a fé dos eleitos de Deus por meio do chamado eficaz e irresistível.

O Espírito Santo de Cristo dá à pregação o seu poder. Cristo atrai os homens por meio da palavra somente, resgatando o seu povo do poder do pecado e da morte, e dando-lhes liberdade, justiça e vida,
 
Essa coisa grande e maravilhosa é realizada inteiramente por meio do ofício da pregação do Evangelho. Visto superficialmente, parece algo insignificante, sem qualquer poder, como qualquer discurso ou palavra de um homem comum. Mas quando tal pregação é ouvida, seu poder invisível e divino está em ação no coração dos homens por meio do Espírito Santo. Portanto, S. Paulo chama o Evangelho de "um poder para salvação de todos que têm fé" (Rm. 1:16).12

Claramente, os pregadores são apenas instrumentos nas mãos de Deus: "Que faremos? Podemos deplorar a cegueira e obstinação do povo, mas não podemos trazer uma mudança para melhor."13 Somente quando Cristo mesmo fala por seu Espírito Santo é que a pregação é poderosa para mudar e trazer salvação.

"Eu, nem qualquer outra pessoa pode pregar a Palavra adequadamente; o Espírito Santo somente deve expressá-la e pregá-la."14 Pois é o Espírito que opera obras pela palavra. Quando por meio da pregação externa da palavra e o testemunho interior do Espírito Santo a fé é criada, então o que é prometido no evangelho se torna eficaz para o crente.

"Conseqüentemente, ela é uma Palavra de poder e graça quando infunde o Espírito ao mesmo tempo em que fulmina os ouvidos. Mas se ela não infunde o Espírito, então aquele que ouve não difere de forma alguma daquele que é surdo."15

Ouvindo a Pregação
Lutero não ignorou o chamado de todos os que ouvem a pregação, para examinar essa pregação, a fim de ver se a mesma é fiel às Sagradas Escrituras. "Por conseguinte, essa é a pedra de toque pela qual toda doutrina deve ser julgada. Uma pessoa deve tomar cuidado e ver se essa é ou não a mesma doutrina que foi publicada em Sião por meio dos apóstolos." É tal pregação que é usada por Deus como a voz poderosa e salvífica de Cristo. "Pois essa somente, como tem sido dito, é a verdadeira doutrina, que concede aos homens um entendimento correto e adequado, conforto ao coração e salvação."16

Junto com essas linhas, Lutero enfrenta honestamente a questão de se Cristo fala ou não através de um pregador, simplesmente porque o mesmo ocupa o ofício.

Em primeiro lugar, devemos saber que aqueles que são enviados falam a Palavra de Deus somente se aderem ao seu ofício e o administram da forma como o receberam. Nesse caso, certamente estão falando a Palavra de Deus… Um embaixador ou emissário do rei cumpre seu dever quando permanece pela ordem e instrução do mestre. Se falha nisso, o rei decapitou-o.17

Quando um ministro, portanto, prega fielmente a palavra de Deus, Cristo se agrada em falar por meio dele por seu Espírito Santo; se não, então essas palavras aplicam-se ao pregador: "Acautelai-vos dos falsos profetas!" Não devemos falar nem ouvir nada, senão a palavra de Deus.

Por essa razão, o evangelho deve ser ouvido e pregado. A pregação não tem apenas substância, mas também um conteúdo bem específico. Lutero insiste: 

"A primeira mensagem do pregador é ensinar penitência, remover ofensas, proclamar a Lei, humilhar e aterrorizar os pecadores."18 

Nosso pecado deve ser exposto pela pregação do evangelho. Concernente ao livro de Romanos, ele diz, A soma e substância dessa carta é: rebaixar, erradicar e destruir toda sabedoria e justiça da carne … não importa quão enérgica e sinceramente elas possam ser praticadas, devemos implantar, estabelecer e engrandecer a realidade do pecado… Pois Deus não quer nos salvar por nós mesmos, mas por uma justiça externa que não se origina em nós, mas que nos vem dos céus."19

A necessidade de pregar a depravação do homem é encontrada no fato que a graça é dada aos humildes. Cristo não veio salvar os justos, mas trazer os pecadores ao arrependimento (Lucas 5:32). Assim, Lutero diz: "Não pode ser humilde aquele que não reconhece ser condenável, cujo pecado fede até os altos céus … O desejo pela graça se origina quando o reconhecimento pelo pecado aparece. Uma pessoa doente procura o médico quando reconhece a seriedade da sua enfermidade."20

E porque o povo de Deus tem uma luta contínua com sua carne pecaminosa, a pregação deve ser antitética. Ela deve ser pregação que não somente soa a trombeta de prata da salvação, mas que soa também a buzina que expõe e reprova o homem velho do pecado e chama ao arrependimento.

Como Lutero reconheceu e experimentou, requer-se coragem na pregação para servir como um embaixador de Cristo. Mas o pregador não pode deter-se em pregar meramente o pecado, pois então equivaleria a machucar e não ligar, ferir e não curar. "Portanto, devemos pregar também a palavra de graça e a promessa de perdão, pela qual a fé é ensinada e levantada."21

O foco de toda pregação deve ser Cristo. O único conteúdo de sua mensagem é sobre ele. "Essa é a essência de sua pregação: Eis o seu Deus! ‘Promova Deus somente, sua misericórdia e graça. Pregue somente a mim.'"22

Portanto, não menos que Calvino, Soli Deo Gloria era o moto de Lutero. A soberania de Deus ocupava um lugar proeminente em toda a pregação de Lutero, pois ele realmente pregava o evangelho. Chegou até ele também o grito da Reforma: "Deixem Deus ser Deus!" Em suas palavras: "O evangelho proclama nada mais que a salvação pela graça, dada ao homem sem quaisquer obras e méritos, seja quais forem. O homem natural não pode receber, ouvir e ver o evangelho. Nem podem os hipócritas, pois o evangelho joga fora as suas obras, declarando que eles não são nada, e não agradam a Deus."23

Somente Deus opera sua maravilhosa obra de graça ao nos salvar. Pois em Cristo somente descansa toda a nossa salvação. O evangelho é pregado com o propósito de consolar com graça aqueles que são contritos de coração.

Martinho Lutero também viu a importância da pregação à luz dos seus frutos positivos. Em oposição aos erros do legalismo, ele reconheceu que a vida cristã deve ser uma vida de gratidão a Deus e, portanto, um abraçar consciente do evangelho de uma salvação graciosa. Vidas gratas seguem-se à pregação fiel.

A abordagem de Lutero para com a pregação é uma que mais tarde seria delineada no Catecismo de Heidelberg. Esse é o caminho do conforto, operado pelo Espírito por meio da pregação.

"Assim, não são as pedras, a construção, e a grandiosa prata e ouro que tornam uma igreja bela e santa; é a Palavra de Deus e a pregação sã."24 E essa é a pregação na qual Deus é glorificado.

Tal pregação é a maior bênção de Deus para a sua igreja. "Portanto, que aqueles que têm a Palavra pura aprendam a recebê-la e dar graças ao Senhor por ela, e que busquem ao Senhor enquanto se pode achar."25 Que nós, os filhos da Reforma, possamos nos humilhar e agradecer a Deus pela pregação fiel. Deus certamente exigirá que prestemos conta de nossa pregação e do nosso escutar.


Fonte: David Engelsma (ed.), The Sixteenth-Century Reformation of the Church, pp. 88-95.

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1E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em outubro/2007.
2Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, ed. and trans. John W. Doberstein, in Luther’s Works, ed. Helmut T. Lehmann (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1959), 51:107.
3Luther, "Psalm 82," in Selected Psalms II, ed. Jaroslav Pelikan, trans. C. M. Jacobs, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1956), 13:49.
4T. H. L. Parker, The Oracles of God: An Introduction to the Preaching of John Calvin (London: Lutterworth Press, 1947), 20.
5Wood, Captive to the Word, 89.
6Luther, "Isaiah 40," in Lectures on Isaiah 40-66, ed. Hilton C. Oswald, trans. Herbert J. A. Bouman, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1972), 17:8.
7Ibid.
8Luther, "Psalm 26," in Selected Psalms I, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Lewis W. Spitz Jr., in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1955), 12:186.
9Luther, "Psalm 2," in Selected Psalms I, in Luther’s Works, 12:43.
10Luther, "Sermon on John 6:37," in Sermons on the Gospel of St. John 6-8, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), 23:98.
11Luther, "Sermon on John 14:10," in Sermons on the Gospel of St. John 14-16, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), 24:66.
12Luther, "Psalm 110," in Selected Psalms II, in Luther’s Works, 13:291.
13Luther, "Lecture on Genesis 6:3," in Lectures on Genesis 6-14, ed. Jaroslav Pelikan, trans. George V. Schick, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1960), 2:17.
14Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, in Luther’s Works, 51:111.
15Luther, "Lecture on Galatians 3:4," in Lectures on Galatians, ed. and trans. Jaroslav Pelikan, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1964), 27:249.
16Luther, "Psalm 110," in Selected Psalms II, in Luther’s Works, 13:271, 272.
17Luther, "Forty-seventh Sermon on the Gospel of St. John," in Sermons on the Gospel of St. John 1-4, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1957), 22:483.
18Luther, "Isaiah 57," in Lectures on Isaiah 40-66, in Luther’s Works, 17:277.
19Luther, "Lectures on Romans," trans. of Römerbriefvorlesung, in Luther’s Works, Weimar ed. (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1959), 56:3, 4. Uma tradução diferente pode ser encontrada na edição americana de Luther’s Works, 25:135, 136.
20Luther, "Heidelberg Disputation, 1518", in Career of the Reformer I, ed. and trans. Harold J. Grimm, in Luther’s Works, ed. Helmut T. Lehmann (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1957), 31:51.
21Luther, "The Freedom of a Christian, 1520," in Career of the Reformer I, in Luther’s Works, 31:364.
22Luther, "Isaiah 40," in Lectures on Isaiah 40-66, in Luther’s Works, 17:14.
23Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, in Luther’s Works, 51:112.
24Luther, "Lecture on Genesis 13," in Lectures on Genesis 6-14, in Luther’s Works, 2:334.
25Luther, "Lecture on Genesis 6:3," in Lectures on Genesis 6-14, in Luther’s Works, 2:18.



30 de outubro de 2011

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“Para receber o favor de Deus em sua vida você deve ofertar e trazer o seu melhor”

Já ouviu esta frase de uma “igreja evangélica”? Se sim, isto é uma prova de que nosso contexto histórico não está muito diferente do de Lutero.

Qual o problema da frase? O problema é que ela nega toda essência do Cristianismo e do Evangelho, desonrando a Deus e Seu Cristo! Sim, é este o nível de perigo desta “ingênua” frase.

Mas por quê?O Evangelho é a boa notícia de que pela fé (e somente pela fé) na morte de nosso Salvador na cruz temos acesso irrestrito a Deus. Isso porque jamais poderemos pagar o que devemos a Deus. Só através do sacrifício do Filho de Deus que podemos ser aceitos diante dele.

Um dos principais combates de Lutero foi contra as chamadas “indulgências”. Na época através de uma quantia financeira você poderia diminuir o seu sofrimento ou de outros no purgatório. Você basicamente comprava o favor de Deus e barganhava com o Altíssimo.

Infelizmente é isso que a teologia da prosperidade tem ensinado nos dias de hoje. Assim como nos dias de Lutero, precisamos de pessoas que se levantem em oração e pregação da Palavra dizendo:

Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra. [Portanto,] separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei [ou que buscais o favor de Deus por mérito financeiro]; da graça tendes caído. (adaptação de Romanos 11:6 e Gálatas 5:4).


Extraído de Voltemos ao Evangelho

25 de outubro de 2011

 Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

Assim como os filhos da Reforma entendem que o maior evento entre Pentecostes e o retorno de Cristo foi acima de tudo um retorno às Escrituras, os calvinistas devem saber o que o teólogo da Reforma dizia ser as Escrituras.

Foram as Institutas de Calvino que—com sua exposição calma, clara e positiva da fé evangélica na autoridade irrefragável da Sagrada Escritura—deram estabilidade às mentes hesitantes, confiança aos corações desalentados, e colocou nos lábios de todos uma brilhante apologia em face das calúnias dos inimigos da Reforma.2

A visão das Escrituras de Calvino é apresentada nos primeiros nove capítulos das Institutas. Foi somente após lançar os princípios da autoridade bíblica que permitiu ele e leitor passarem a considerar as doutrinas de Deus, do homem, de Cristo, da salvação e da igreja. Dos capítulos um ao cinco, Calvino trata assuntos tais como a relação entre o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos, a natureza do conhecimento de Deus, e o que a queda fez ao conhecimento do homem. Ele enfatiza no capítulo seis que o guia e ensino da Escritura é necessário mesmo para conhecer Deus corretamente como criador. Repetidamente ele enfatiza que "Deus não apenas se serve de mestres mudos [a criação], mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar." Ele nos lembra que não está tratando o pacto ou a salvação nos primeiros nove capítulos: "mas somente enfocarei como se deve aprender da Escritura que Deus, que é o Criador do mundo, se distingue, por marcas seguras, de toda a multidão forjada de deuses."3

É claro, portanto, que Calvino ensinou que o estudo da criação pela ciência, embora mais que suficiente para privar a ingratidão dos homens de toda escusa, não era suficiente para dar algo mais que noções confusas da deidade. Não existe, em sua visão, uma relação recíproca entre a Escritura e as descobertas científicas, pela qual cada uma lança luz verdadeira sobre a outra, como os evolucionistas teístas mantém hoje. Os calvinistas devem evitar essa armadilha orgulhosa, e confessar que somente a Escritura nos dá a verdade com respeito à criação e o criador.

O Estabelecimento da Autoridade da Escritura
No capítulo sete das Institutas, Calvino ensina que a menos que a autoridade da Escritura seja firmemente estabelecida, dúvidas florescerão e haverá uma falta de reverência para com a Palavra.
Como, porém, não se outorguem oráculos dos céus quotidianamente, e só subsistem as Escrituras, na qual aprouve ao Senhor consagrar sua verdade e perpétua lembrança, elas granjeiam entre os fiéis plena autoridade, não por outro direito senão aquele que emana do céu onde foram promulgadas, e, como sendo vivas, nelas se ouvem as próprias palavras de Deus.4

Calvino chama de um "erro perniciosíssimo" ensinar que as Escrituras derivam sua autoridade e valor da determinação da igreja, ou que a igreja decidiu que reverência se deve à Escritura, e que livros deveriam ser arrolados em seu cânon.5

Citando Efésios 2:20, que diz que a igreja é edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, Calvino destrói a argumento que a Escritura depende das decisões da igreja. Se o fundamento da igreja é a Escritura, então a Escritura precede a existência da igreja, e a igreja não pode existir sem a Escritura. Como, então, ela pode ser o juiz? "Conseqüentemente, enquanto a recebe e com sua aprovação a sela, a Igreja não a converte de duvidosa em autêntica, ou de outro modo seria controvertida; ao contrário, visto que a reconhece como sendo a verdade de seu Deus, por injunção da piedade, a venera sem qualquer restrição."6

Os inimigos da autoridade bíblica gostam de citar a declaração de Agostinho, "na qual ele só creria no evangelho se a autoridade da Igreja o movesse a isso."7 Calvino chama isso de falso e injusto, pois o contexto da declaração de Agostinho é ignorado. Agostinho, quando argüindo contra os maniqueus, escreve isso somente daqueles estranhos à fé, que não poderiam ser persuadidos a crer no evangelho como a verdade de Deus, a menos que vissem concordância uniforme na igreja. Pois como a igreja pode ordenar a obediência da fé, se ela mesmo não concorda em doutrina? Agostinho mantinha que a autoridade da igreja era somente uma introdução para preparar os ouvintes para a fé do evangelho.

Calvino insiste que a principal prova para a autoridade da Bíblia é derivada do caráter do Divino Locutor. "Os profetas e os apóstolos não alardeiam, seja sua habilidade, sejam quaisquer elementos que granjeiam credibilidade aos que falam, nem insistem em razões, mas invocam o sagrado nome de Deus, mediante o qual todo mundo seja compelido à obediência". Ele imediatamente adiciona: "… o testemunho do Espírito é superior a toda razão. Ora, assim como só Deus é idônea testemunha de si mesmo em sua Palavra, também assim a Palavra não logrará fé nos corações humanos antes que seja neles selada pelo testemunho interior do Espírito."8 O que devemos pensar dos calvinistas do século XXI que questionam a natureza e extensão da autoridade bíblica? Por que eles nomeiam comitês para estudar tal questão? Isso é conspiração infiel contra o princípio fundamental da Reforma.

Após chamar de uma verdade inegável que "aqueles a quem o Espírito Santo interiormente ensinou aquiescem firmemente à Escritura, e esta é indubitavelmente autenticada por si mesma"—uma grandiosa declaração ecoada no Artigo 5 da Confissão Belga—Calvino não teme colocar a incapacidade da razão para estabelecer a Bíblia como a palavra de Deus ao lado da racionalidade da fé que assim crê. "Portanto, aqui está uma convicção que não requer razões; um conhecimento ao qual assiste a mais sublimada razão; na verdade, no qual a mente descansa mais firme e constantemente que em quaisquer razões; enfim, um sentimento que não pode nascer senão de revelação celestial."9 Isso é o que todo crente experimenta no profundo do seu coração. Isso é o que Isaías quer dizer quando declara: "E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR" (Is. 54:13). E esse grande dom da fé é o que distingue o eleito do restante da humanidade. Somente aos eleitos é dado conhecer os mistérios de Deus.

Provas Racionais Assistem a Crença na Escritura
Embora a fé seja necessária para estabelecer a verdade e autoridade da Escritura no coração de alguém, Calvino admite que certas provas racionais podem ajudar o crente em sua confissão e defesa da doutrina bíblica—mas somente se o fundamento da fé já tiver sido lançado. "De igual modo, em contrapartida, quando, devotamente e consoante a dignidade de que ela se reveste, uma vez a temos abraçado como separada da sorte comum das coisas, esses elementos que até então não assumiam relevância para infundir-nos e fixar-nos na mente sua sólida credibilidade, são agora subsídios mui apropriados." Calvino tinha em mente a "bem ordenada e disposta … dispensação da sabedoria divina" na Escritura; "quão celeste [era ela] em todos os aspectos, e sua doutrina nada tendo de terreno"; "quão esplêndida [era] a harmonia de todas as partes entre si"; e a "dignidade do conteúdo … [ao invés da] graça da linguagem." Ele crê que a "a verdade da Sagrada Escritura se manifesta de forma tão sobranceira, que necessidade nenhuma há do artifício das palavras" e "que os sublimes mistérios do reino celeste [foram], em larga medida, transmitidos em termos de linguagem singela e sem realce."10

Todavia, "alguns profetas têm um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, de modo que sua eloqüência não é inferior à dos escritores profanos. E, com tais exemplos, o Espírito Santo quis mostrar que não lhe faltava eloqüência, enquanto em outros lugares fez uso de um estilo não burilado, nem pomposo."11 Quer a linguagem bíblica seja uma doce corrente de palavras, ou caracterizada pela rusticidade, a inspiração da Escritura é por toda parte evidente.

Outra prova auxiliar à fé na Escritura é a resistência da palavra de Deus por todas as gerações. Em admiração, Calvino escreve, Pois, nem se deve julgar ser de importância mínima que, desde que a Escritura foi publicada, constantemente se lhe anuiu à obediência o querer de tantos séculos, e por mais que Satanás, com todo o mundo, a tenha tentado, por meios perplexivos, seja oprimindo, seja destruindo, seja de todo refreando e obliterando da lembrança dos homens, entretanto sempre, como a palmeira, tem ela subido mais alto e persistido de forma inexpugnável.12

Calvino atribui a preservação da Escritura por todas as eras, não à igreja ou à fidelidade dos homens, mas à providência de Deus. Esse fato confortador e histórico é uma prova adicional que a Bíblia é um livro divino.

A prova final que pode auxiliar nossa fé em receber as doutrinas da Bíblia com confiança é que a Escritura foi confirmada pelo sangue de muitos santos.

Esses varões, uma vez recebida esta doutrina, não vacilaram em enfrentar a própria morte, animosa e intrepidamente, e até mesmo com exaltado júbilo. Transmitida que nos foi com esse penhor, como não a esposaremos nós com segura e inabalável convicção? Portanto, não é uma comprovação de pouco peso o fato de a Escritura foi selada pelo sangue de tantas testemunhas.

Calvino termina o capítulo oito das Institutas com a recordação que "a Escritura será realmente satisfatória para o conhecimento salvífico de Deus … quando a certeza lhe for fundada na convicção interior pelo Espírito Santo. De fato, esses testemunhos humanos, que subsistem para confirmá-la, de fato não serão debalde se acompanharem aquele testemunho primordial e supremo, como subsídio secundário de nossa limitada compreensão."13

Alegações de Revelações Especiais Subvertem a Piedade
Calvino é intolerante para com aqueles que pretendem não necessitar da Escritura, porque receberam revelação especial do Espírito. Ele chama essa tentativa de separar a palavra do Espírito de ridícula, pueril, perversa e subversiva. "Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada através do evangelho."14 Visto que o Espírito é o autor da Escritura, ele não pode por revelações secretadas ser inconsistente consigo mesmo. Ele sempre testifica sua própria verdade que expressou na Escritura, com o resultado "que manifesta e patenteia seu poder somente onde a Palavra é recebida com a devida reverência e honra."15 O antídoto para o crescente misticismo e a ênfase imprópria sobre o Espírito em nossos dias é a doutrina reformada da suficiência da Sagrada Escritura.

Calvino nitidamente limita às noções confusas da deidade o que pode ser conhecido a partir da criação, nega que a autoridade da Escritura dependa das decisões da igreja, adverte contra argumentos racionais para a inspiração bíblica se a fé não estiver primeiro presente, e conclui com crítica severa àqueles que desejam separar a Palavra do Espírito. Citações extensas das Institutas mostram isso. Seu apetite não foi estimulado a dar às Institutas uma primeira ou nova leitura cuidadosa?

Dale Kuiper
Fonte: David Engelsma (ed.), The Sixteenth-Century Reformation of the Church, pp. 69-74.
Extraído do Site Covenant Protestant Reformed Church - Clike
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1E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em setembro/2007.

2Benjamin B. Warfield, "Literary History of Calvin’s Institutes" in Calvin, Institutes of the Christian Religion, trans. John Allen (Philadelphia: Presbyterian Board of Christian Education, n.d.), 1:v.

3Calvino, Institutas, 1.6.1. [Em todas as citações das Institutas, utilizamos a tradução brasileira do dr. Waldyr Carvalho Luz].

4Ibid., 1.7.1.

5Ibid., 1.7.1.

6Ibid., 1.7.2.

7Ibid., 1.7.3.

8Ibid., 1.7.4.

9Ibid., 1.7.5.

10Ibid., 1.8.1.

11Ibid., 1.8.2.

12Ibid., 1.8.12.

13Ibid., 1.8.13.

14Ibid., 1.9.1.

15Ibid., 1.9.3. Minha tradução, a partir da versão das Institutas utilizada pelo autor..

23 de outubro de 2011

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Não me entendam mal. Se o título dessa postagem parece ofensivo não é menos do que a atitude da maioria das denominações pentecostais. Estamos no mês onde se comemora 494 anos da Reforma Protestante e sempre nessa data as denominações de confissão histórica estão promovendo seminários, palestras, congressos, simpósios. Tudo para avivar na mente das pessoas a importância desse acontecimento. Mas e as pentecostais? O que elas fazem para honrar o retorno do Cristianismo à pureza do evangelho de Cristo? Nada!

Estive fazendo uma pesquisa nos sites das principais denominações pentecostais do país e nada encontrei sobre a Reforma. O que podemos concluir com isso? Que há um desprezo sem igual por aquilo que nos possibilitou estarmos aqui hoje. A pergunta é: Por que isso acontece. Tenho algumas respostas.

      Não é interessante ficar relembrando um evento que pode desenvolver nas pessoas um senso crítico que as impeça de receber as fortalezas lançadas continuamente nesses lugares. Qualquer cristão sincero e que estude fielmente a Bíblia e a história da Reforma irá encontrar sérias contradições entre o que hoje é chamado de protestantismo e aquilo que foi pejorativamente denominado protestante no século XVI. As diferenças gritantes, ao contrário do que afirmam alguns, não são irrelevantes, pois se tratam da essência e do âmago da Fé que protestou contra o papado e as aberrações deste. Ora se algo perde sua essência, isto significa que perdeu também sua identidade. Já pensou se Deus perdesse sua essência? Simplesmente não seria mais Deus. Assim também se o protestantismo perdeu sua essência e valores, logo deixou de ser protestantismo para ser qualquer outro “ismo” por aí.

      Mencionar a Reforma exigiria da parte de certas lideranças o compromisso de assumir o risco de perder membresia para o estudo e meditação de assuntos que realmente são importantes para a Igreja. Na grande maioria das denominações pentecostais, e porque não dizer 99,9 % delas, predomina o antropocentrismo doente, o humanismo sofista que leva as pessoas a procurarem antes de tudo o seu próprio bem-estar. Não vemos essas denominações pregando as doutrinas da Graça de Deus como eleição, justificação, etc. Alguns talvez digam: Ah, isso é calvinismo! Ora então Lutero era calvinista, pois falou reinteiradas vezes sobre esses temas. Não amados, esses temas não são meramente calvinistas, esses eram os temas que se pregavam nos púlpitos comprometidos unicamente com a pureza do evangelho. Os púlpitos que priorizavam o genuíno evangelho. Um pastor que de fato é protestante não importuna a congregação com mensagens que alisam o ego humano, que induz o povo a uma busca por prosperidade e curas nem nada que seja material e temporário, antes os púlpitos protestantes falam de coisas eternas, ensinam como ajuntar tesouros nos céus e apontam aos pecadores qual é o caminho da salvação, ensinando-lhes a baterem na porta dos Céus implorando para serem aceitos por Deus e sua misericórdia!
Quando se faz simpósios e congressos pentecostais quais são os temas que abordam? “Vida Vitoriosa”, “Festival de Maravilhas”, “Fogo para o Brasil”, as palavras que vejo saindo dos lábios de muitos pregadores são: Cresça, conquiste, prospere, determine, profetize, grite, pule, não aceite, apareça, se engrandeça e etc. Ao invés disso deveriam dizer: Se prostre ante a majestade e soberania do Eterno, humilhe-se na presença de Deus para que ele a seu tempo vos exalte. A Igreja hoje têm perdido o sentido do que vem a ser o evangelho da humilhação. As falsas experiências sobrenaturais estão destruindo a pureza do evangelho, as visões, profecias, línguas, curas, idas ao céu e ao inferno, combates contra demônios e toda a sorte de mentiras usando as Escrituras têm prevalecido e construído uma das fortalezas mais difíceis de derrubar. E tais líderes perceberam que sem essas coisas não é possível construir grandes impérios mercantilistas travestidos de congregações e igrejas. Precisamos continuar a Reforma!

      A Reforma traz à lume uma visão de Deus muito desagradável. Não pensem que foram bons motivos que levaram alguns apóstatas a abandonarem os princípios da Fé Protestante e criarem os seus próprios. O que acontece é que o pensamento reformado reconheceu a centralidade de Deus em todas as coisas, colocando o homem em último plano. Isso pode ser muito desagradável para alguns. Imaginar que suas vidas estão sendo controladas e convergindo num plano maior do qual eles não têm como saber de que forma irá terminar ao certo, pode parecer muito frustrante. A vontade de possuir o controle de tudo é o dínamo que move o homem em direção a rebeldia contra a soberania de Deus. Falar em Reforma é falar em Deus soberano. Deus soberano é o mesmo que homem incapaz e homem incapaz é o mesmo que ferir o orgulho com qual muitos se exaltam em afirmar que podem frustrar os planos e desígnios de Deus deixado-os a mercê de suas torpes decisões.

Um pentecostal jamais irá admitir plenamente a soberania de Deus, pois sua cosmovisão distorcida da realidade o leva a questionar a justiça e benignidade do Eterno julgando-os por seus próprios conceitos de justiça e retidão. Sendo assim, para muitos este é um assunto que deve permanecer em secreto, e se mencionado que se faça superficialmente para que não se desperte a curiosidade do povo e não os faça pesquisar mais sobre o mesmo e dessa forma questionar as coisas que tem aprendido rotineiramente nos “cultos de fogo”. Vejo todo esse panorama com profunda semelhança à questão dos fariseus e doutores da Lei, os quais impediam as pessoas simples de tomarem conhecimento da verdade surrupiando-lhes a chave do conhecimento. Talvez a história hoje seja a mesma, mudando-se apenas os protagonistas.

“Ai de vós, doutores da lei! porque tomastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes aos que entravam” (Lucas 11.52).


Pr. Samuel

20 de outubro de 2011


Monumento à Reforma em Genebra na Suíça
Alderi Souza de Matos

Além dos líderes principais - Zuínglio, Bullinger, Bucer e Calvino - o movimento reformado teve muitos outros teólogos significativos. João Ecolampádio (1482-1531), o reformador de Basiléia, foi aliado de Zuín­glio e deu grande contribuição na área de estudos bíblicos e patrísticos. Wolfgang Fabricio Capito (1478-1541) foi companheiro de Bucer em Estrasburgo e era um erudito com doutorados em medicina, teologia e direito. O polonês Jan Laski (1499-1560) era humanista e amigo de Erasmo de Roterdã, cuja biblioteca adquiriu; foi pastor em vários países e escreveu importantes declarações doutrinárias. Pedro Mártir Vermigli (1499-1562), natural de Florença, lecionou teologia em Estrasburgo, em Oxford (a convite do arcebispo Thomas Cranmer) e em Zurique. Zaca­rias Ursino (1534-1583) na juventude foi amigo e discípulo de Melanchton em Wittenberg. Indo para o Palatinado, tornou-se o principal autor, ao lado de Gaspar Olevianus, do apreciado Catecismo de Heidelberg (1563), a confissão de fé da Igreja Reformada Alemã. Jerônimo Zanchi (1516-1590), um discípulo de Vermigli, foi pastor e professor de teologia em Estrasburgo e Heidelberg, onde sucedeu Ursino. Escreveu obras teo­lógicas sobre temas como a predestinação e a doutrina da Trindade. 

Todavia, o representante clássico da ortodoxia reformada foi Teodo­ro Beza (1519-1605), que sucedeu Calvino como líder do movimento reformado na Suíça. Atuou como diretor e professor de teologia na Academia de Genebra de 1559 a 1599 e foi um teólogo influente em todo o movimento. Era um erudito do Novo Testamento, tendo publi­cado uma valiosa edição do Novo Testamento grego. Suas principais obras de teologia foram Confissão da fé cristã (1560) e Tratados teológicos (1570-1582). Elaborou o pensamento de Calvino, dando-lhe ênfases e orientações novas no tocante à inspiração das Escrituras, predestina­ção, expiação limitada e governo presbiterial. Fez uma defesa racional da teologia do seu ilustre predecessor, esclarecendo algumas tensões não resolvidas dessa teologia. Os estudiosos interpretam seu trabalho de maneiras diversas: alguns opinam que ele causou a distorção e o enrije­cimento da teologia calvinista, outros entendem que ele contribuiu para a explicitação e aperfeiçoamento do pensamento de Calvino. 

A partir de uma reflexão sobre os decretos de Deus, Beza formulou uma posição teológica denominada "supralapsarisrno" (de supra = antes e lapsus = queda). Calvino havia ensinado a doutrina da predestinação, mas a situou dentro da soteriologia, como parte da atividade graciosa de Deus, admitindo que se tratava de uma área difícil, delicada e miste­riosa. Beza deu maior ênfase a essa doutrina e a situou dentro da doutri­na de Deus, aproximando-se mais de Zuínglio que de Calvino. Visando proteger a doutrina da predestinação de qualquer possibilídade de si­nergismo, ele e outros calvinistas ortodoxos desenvolveram o supralap­sarismo ao refletir sobre a ordem lógica (não cronológica) dos decretos de Deus. 

Nessa corrente, a ordem do decretos ficou sendo a seguinte: 1. De­creto de predestinar alguns para a salvação; 2. Decreto de criar o mundo e a humanidade; 3. Decreto de permitir a Queda; 4. Decreto de prover os meios de salvação (Cristo e o evangelho); 5. Decreto de aplicar a salvação aos eleitos. 

Como se pode observar, o decreto de predestinação é o mais funda­mental, antecedendo todos os demais, em especial o de permitir a queda. Daí o termo supralapsarismo, isto é, antes da queda. Outros teólogos ortodoxos elaboraram uma posição um pouco diferente - o "infralapsa­rismo". Ou seja, o decreto de predestinação é posterior à queda, da se­guinte maneira: 1. Decreto de criar o mundo e os seres humanos; 2. Decreto de permitir a Queda; 3. Decreto de predestinar para a salvação ou a perdição; 4. Decreto de prover os meios de salvação (Cristo e o evange­lho); 5. Decreto de aplicar a salvação aos eleitos. 

Assim, no supralapsarismo o propósito de Deus é glorificar a si mes­mo pela predestinação, no infralapsarismo, seu propósito é glorificar-se pela criação. No primeiro caso, o decreto se aplica aos homens como criaturas; no segundo, se aplica a eles como pecadores. 

Na segunda metade do século XVI, os partidários dessas duas cor­rentes gradualmente formularam um sistema de teologia calvinista que posteriormente recebeu a designação de "cinco pontos do calvinismo". Esses pontos são os seguintes:
  1. Depravação total: os seres humanos estão mortos espiritualmente até que Deus os regenere e lhes conceda graciosamente a dádiva da salvação.
  2. Eleição incondicional: Deus escolhe alguns seres humanos para a salvação, independentemente de qualquer coisa que eles possam fazer.
  3. Expiação limitada: Cristo morreu somente para salvar os eleitos; sua morte expiatória não foi em benefício de todos.
  4. Graça irresistível: não é possível resistir à graça de Deus; o eleitos serão certamente salvos.
  5. Perseverança dos santos: os eleitos perseverarão inevitavelmente para a salvação (eterna segurança).
Em inglês, as iniciais dessas expressões formam a palavra tulip ("tuli­pa''), nome pelo qual ficaram conhecidas historicamente. Essas posi­ções foram vistas como decorrências necessárias da plena soberania de Deus. 

Outros destacados teólogos reformados do período da ortodoxia fo­ram os holandeses Gisbertus Voetius (1588-1676) e Johannes Cocceius (1603-1669). Cocceius escreveu a obra Suma da doutrina do pacto e do testamento de Deus, na qual elaborou a teologia federal ou do pacto. O francês Moíse Amyraut ou Amiraldo (1596-1664), ligado à Escola de Saumur, defendeu a concepção conhecida como "universalismo hipo­tético" ou arniraldismo. Cristo morreu por toda a humanidade, mas a sua redenção beneficia somente os eleitos. 

O mais importante teólogo sistemático da ortodoxia reformada no continente europeu foi o ítalo-suíço François Turretin ou Francisco Tur­retíno (1623-1687). Ele se tomou professor de teologia na Universidade de Genebra em 1653 e foi co-autor da Formula consensus helvetica (1675), que afirmou a preservação da integridade do texto bíblico ao longo dos séculos. Escreveu uma teologia sistemática muito influente, Institutio theologiae elencticae ("Compêndio de teologia apologética", 1679-1685), que seria utilizada por muitos anos no Seminário de Princeton, nos Estados Unidos, servindo de base para a chamada Teologia de Prince­ton. Ironicamente, seu filho Jean-Alphonse liderou uma reação liberal que em 1725 levou à rejeição dos Cânones de Dort e da Segunda confissão helvética em Genebra.

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Fonte: Fundamentos da Teologia Histórica, Alderi Souza de Matos, Ed. Mundo Cristão, pág. 179-182.